Pílula Catequista
iniciativa leiga, em comunhão com o Magistério

Meditação da Manhã

Um texto por dia sobre a liturgia do dia: o versículo que sustenta a leitura, uma palavra no original, um Padre da Igreja, um Doutor, um parágrafo do Catecismo e o santo que a Igreja lembra. Para ler depois da Missa, ou antes do café.

Semana de 20 a 26 de setembro de 2026
Segunda-feira, 21 de setembroFesta de São Mateus, apóstolo e evangelista · 25ª semana

Levantou-se e seguiu

Leituras: Ef 4,1-7.11-13 · Sl 18(19A) · Mt 9,9-13 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

Pintura a óleo: em torno de uma mesa de cobrança, homens conferem moedas e um livro de contas; à direita, Cristo estende o braço e aponta para o cobrador.
A mesa cheia de moedas e livros-caixa, e o braço estendido de Cristo vindo de fora da cena: van Hemessen pintou o segundo exato de Mateus 9,9.Jan Sanders van Hemessen, The Calling of Saint Matthew. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 71.155 · CC0

A palavra do dia

"Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’."
Mateus 9,13 — tradução da CNBB

O fio das leituras

A festa de um apóstolo escolhe as leituras pela vocação. Paulo, na carta aos Efésios, descreve a Igreja como um corpo único — "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" — e diz que dentro dessa unidade cada um recebe o seu lugar: "foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas". Mateus é as duas coisas ao mesmo tempo, e por isso a Igreja o chama hoje de apóstolo e evangelista. O salmo canta a palavra que se espalha sem fazer barulho: "seu som ressoa e se espalha em toda a terra". E o Evangelho conta como isso começou, num posto de cobrança de impostos.

O texto por dentro

Mateus estava "sentado na coletoria de impostos". Vale entender o que isso queria dizer na Galileia do século I. O cobrador arrematava o direito de recolher taxas para o poder estrangeiro e vivia da diferença: quanto mais apertasse, mais ganhava. Era, aos olhos dos vizinhos, um colaborador e um ladrão com licença legal. Por isso aparece sempre na mesma lista: "cobradores de impostos e pecadores".

Jesus não espera ele largar o posto. Chama ali, de pé, com o dinheiro ainda na mesa. E o texto é econômico ao extremo: "Ele se levantou e seguiu a Jesus". Duas ações, nenhuma explicação. Logo depois vem o jantar, e é o jantar que provoca a pergunta dos fariseus: "Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?" Naquela cultura, sentar-se à mesa com alguém era declarar que se pertence ao mesmo mundo.

Jesus responde com um provérbio e com um profeta. Primeiro o provérbio: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes". Depois a ordem de estudar: "Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’" — palavra de Oseias, dirigida a um povo que mantinha o culto em dia e a justiça em falta. E o fecho, que é o último versículo da leitura: "eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores".

Essa frase assusta quem se esforça. Ela não diz que Deus dispensa quem tenta viver direito. Ela é irônica: os "justos" são os que se consideram justos, os que estão fazendo a pergunta de fora da mesa. Quem se sabe doente procura médico; quem se declara são não procura. Sobre a autoria do Evangelho há um ponto a dizer com honestidade: a Igreja o recebe desde a Antiguidade como o Evangelho segundo Mateus, e os estudiosos discutem hoje como se deu essa composição. A Igreja não definiu a questão em termos dogmáticos, e a fé do leitor não depende dela.

A palavra no original

ἔλεοςéleos — pena, compaixão, misericórdiao termo que a Escritura grega usa para a fidelidade compassiva de Deus

É a palavra que está em "quero misericórdia e não sacrifício". No grego comum, éleos é a compaixão que se sente diante de quem sofre. Nos livros gregos do Antigo Testamento ela ganhou peso: passou a traduzir o amor fiel de Deus, aquele que não desiste. Repare no contraste que a frase monta: de um lado, o sacrifício, que é algo que eu ofereço e controlo; do outro, a misericórdia, que é algo que eu recebo e tenho de repassar. Deus prefere o segundo — não porque o culto não valha, mas porque culto sem misericórdia é conta que não bate.

Como os Padres leram

São João Crisóstomo pregou esta página em Antioquia e reparou numa coisa que a gente costuma pular. Por que o Evangelho diz que Mateus estava sentado na coletoria? "Para indicar o poder daquele que o chamou: não foi quando ele já tinha deixado ou abandonado esse ofício sujo, mas do meio dos males que ele o puxou para cima" (tradução livre, Homilia 30 sobre Mateus). E acrescenta que o próprio evangelista não escondeu o próprio passado: enquanto os outros o chamam de Levi, Mateus assina o nome que todos conheciam do posto de imposto.

Doutor e Catecismo

Santo Tomás de Aquino pergunta se a justificação do ímpio é a maior obra de Deus (Suma Teológica I-II, q. 113, a. 9). A resposta é fina. Pelo modo de agir, a criação é maior: tirar tudo do nada não tem comparação. Mas pelo que resulta, diz ele, "a justificação do ímpio, que termina no bem eterno da participação na divindade, é maior do que a criação do céu e da terra, que termina no bem da natureza mutável" (tradução livre). Um cobrador de impostos que se levanta e segue é, nessa conta, um acontecimento maior do que uma estrela.

O Catecismo resume o dia inteiro numa linha: "Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino". E completa com a única nuance que falta ao card: "Convida-os à conversão sem a qual não se pode entrar no Reino, mas por palavras e actos, mostra-lhes a misericórdia sem limites do Seu Pai" (Catecismo, n. 545, edição portuguesa). Convite e conversão não se opõem: o convite é que torna a conversão possível.

Santo do dia

São Mateus, apóstolo e evangelista

Chamado do posto de cobrança, Mateus ofereceu a Jesus um grande banquete em casa, ao qual foram também publicanos e pecadores — o que escandalizou escribas e fariseus. A resposta de Jesus, diz a Vatican News, foi o que o marcou: os sãos não precisam de médico, mas os doentes. Deixou tudo e tornou-se um dos Doze; seu nome aparece nos Atos dos Apóstolos. Sobre o fim da vida as fontes divergem: algumas dizem que morreu de causas naturais; tradições que a própria Vatican News classifica como pouco críveis o levam à Etiópia. Na figura dos quatro viventes do Apocalipse, Mateus é associado ao que tem aspecto de homem. Suas relíquias são veneradas na cripta da catedral de Salerno, onde a festa de 21 de setembro é celebrada com procissão solene. A cena de hoje ficou célebre na pintura da Vocação de São Mateus, de Caravaggio, em que a luz não vem da janela, mas de Cristo.

Há uma parte da sua vida que você acha que precisa arrumar antes de levar a Deus. Hoje é o dia de entender que a ordem é a inversa: ele chama de dentro da bagunça, com o dinheiro ainda em cima da mesa. Procure a confissão nesta semana — sem esperar melhorar primeiro. E, se puder, convide para a sua mesa alguém que a sua roda considera impossível.

Fontes e verificação
  • EscrituraMt 9,9-13; Ef 4,5.11; Sl 18(19A),5: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (festa de São Mateus, apóstolo e evangelista, cor vermelha), conferido em 19/09/2026. A citação de Oseias dentro de Mt 9,13 aparece na CNBB entre aspas simples; aqui, em aspas simples curvas.
  • MagistérioCIC 545: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 19/09/2026. O parágrafo cita Mc 2,17 e Lc 15,7 na tradução da própria edição do Catecismo, não na da CNBB; as aspas angulares do original foram convertidas em aspas retas.
  • PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 30 sobre Mateus, § 1: texto integral em newadvent.org (NPNF I/10); tradução livre do inglês.
  • DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica I-II, q. 113, a. 9, corpo: newadvent.org; tradução livre do inglês. A frase de Santo Agostinho que Tomás cita vem no corpo do artigo.
  • Léxicoéleos: LSJ, s.v. ἔλεος ("pity, mercy, compassion"), com o registro do uso na Escritura grega, conferido no Perseus (LSJ integral) em 19/09/2026; texto grego de Mt 9,13 no SBLGNT. BDAG como referência para o uso no Novo Testamento.
  • SantoVatican News, "S. Mateus, apóstolo e evangelista", com o artigo integral ligado à página do dia. A ressalva sobre o fim da vida e a classificação das tradições como pouco críveis são do próprio artigo.
  • ImagemJan Sanders van Hemessen, The Calling of Saint Matthew, óleo sobre madeira. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 71.155 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/436643 (licença conferida na API oficial do museu em 19/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).